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terça-feira, 7 de julho de 2009

APRESENTAÇÃO

Já se passaram vinte anos desde que escrevi Introdução à Filosofia Econômica, um pequeno estudo onde pretendi observar a economia sob um olhar holístico, para usar mais uma linguagem que hoje já se consolidou, mas que na época em que escrevíamos era ainda algo não muito bem definido.
Naquela época eu “estava” economista, e nem imaginava que tais estudos e questionamentos me levariam nos próximos dez anos a mudar inclusive de atividades profissionais, tornando-me também naturólogo e terapeuta holístico.
Este estudo ficou na gaveta todos esses anos. Uma vez apenas foi usado, em 1992, por alguns alunos meus quando eu lecionei como professor substituto em duas disciplinas na faculdade de ciências econômicas da UFSC, e eles gostaram, para minha grande alegria, pois reconheço que estas páginas são o sumo das boas coisas que ficaram daqueles anos em que eu me dedicava a aprender algo das ciências políticas e econômicas.
Posso dizer que encerrava um ciclo e me abria um longo caminho para nova vida, em todos os sentidos, inclusive o campo profissional. E não posso negar também toda a influência que absorveu dos meus estudos da Doutrina dos Espíritos - o espiritismo - juntamente com a grande obra do sábio e pensador italiano Pietro Ubaldi, autor de A Grande Síntese. Ajudaram-me a costurar as complexidades de uma ciência que tem sido estudada mais do ponto de vista materialista.
Eu renasci numa família católica, e portanto sou católico de berço. Ao ingressar na universidade, tamanho foi o impacto das ciências positivas e do materialismo histórico e dialético sobre mim que me esforcei para ser ateu – o que me fez muito infeliz. Os anos se passaram e as simples agruras da vida me reconduziram novamente ao cristianismo, então através do espiritismo. Outro tanto de tempo se passou e a minha curiosidade fez-me incursionar por outras religiões e filosofias, principalmente as orientais, me tornando um universalista no campo religioso.
Fiz-me também discípulo e devoto de quem é chamado por muitos, no mundo inteiro, como O Avatar de nossa época – Sathya Sai Baba, o Homem Santo que reside no sul da Índia. Quando lá estive fui intuído por Ele de que a minha tarefa junto à seara espírita brasileira ainda não estava terminada, o que muito me surpreendeu. Ele tinha razão, pois pouco depois do meu retorno fui levado para novos estudos e trabalhos que me fizeram incorporar a psicoterapia reencarnacionista no meu dia-a-dia profissional.
Algo me diz que devo tentar publicar este pequeno estudo, mesmo que seja de forma simples e humilde, pois não somente retrata passagem importante da minha própria vida, mas aspectos do que hoje em dia se estuda, mesmo nas rígidas academias limitadas pelo dogma do experimentalismo científico, como O Novo Paradigma Holístico. O principal, no entanto, ainda não é isso, e sim o fato de que vinte anos após este trabalho me parece absolutamente pertinente e atual.

Ilha de Santa Catarina / 12.07.2006

PREFÁCIO

Não posso negar a grande influência da Introdução À Filosofia Matemática, de Bertrand Russel, na escolha do título deste pequeno trabalho.
Sempre senti um grande desperdício de esforços no ensino formal predominante nas escolas em geral, seja nas escolas secundárias, como nas universidades; quero dizer, um desperdício gerado pelo descompasso entre a teoria e a prática, demasiadamente grande, e o pensador Russel demonstra isso no seu Introdução, de uma maneira marcante e brilhante, ensinando-nos a outra matemática, mais ligada à vida, para que saiamos da contumaz decoreba do entendimento aparente, inconsciente e não duradouro, para um aprendizado mais profundo, verdadeiro, que nos faça "sentir" ou "captar" que a raiz quadrada de pai é filho, e assim por diante.
Essa forma diferente de perscrutar as coisas, levou-me à semelhança no título. Tolhia-me, contudo, a pretensão da comparação, que, confesso, não quis ter. Conheço as minhas limitações e sei do potencial e distancia intelectiva que me separam do professor Russel.
Muito embora isso, sabia que esse tipo de enfoque jamais havia sido dado à ciência econômica, e tão liberto era das amarras do ultrapassado experimentalismo científico atual e predominante no meio acadêmico, que não haveria outra brecha para este tipo de trabalho senão a velha filosofia, que, embora argolada aos padrões oficiais, tudo pode, tudo permite, pois é abertura para maiores saltos do pensamento humano, que não admitirá jamais ser cerceado em sua viagem célere e inexorável para o mais infinito.
Pensei então que tinha uma desculpa frente aos mestres, e por isso, encorajei-me a manter o título, esperando que estes escritos possam contribuir para reflexões positivas frente a vida.
Com este trabalho, tive em mente um público leitor de estudantes recém iniciados nos cursos universitários, ou todos os secundaristas que gostam de estudar e já entenderam que não há maneira de parar. É preciso avançar sempre com os estudos e as leituras, fortalecendo-nos para os naturais embates da vida, em direção ao futuro e à Grande Inteligência Suprema Do Universo.
Ilha de Santa Catarina / 21.08.1987

1. A COMPLEXIDADE DA QUESTÃO ECONÔMICA.

No atual estágio evolutivo em que se encontram as diversas nações do planeta, em suas relações umas com as outras, mantendo o equilíbrio sistêmico que configura a estrutura econômica mundial, neste final de século XX, é possível afirmar que os elos que ligam todos os fatos e agentes econômicos, são complexos e de difícil entendimento.
A evolução tecnológica dos aviões a jato, dos computadores, dos comandos numéricos, dos robôs, impulsionou, paralelamente, o desenvolvimento da economia como ciência, e esta cresce cada vez mais, aprimora-se, enquanto modelos novos, análises, esquemas, previsões, comparações, testes, na mesma razão em que evolve a mente humana, engendradora constante na busca da perfeição.
Uma série de fatores históricos que dizem respeito à própria formação da humanidade, cristaliza, neste momento, um quadro em que os agrupamentos humanos, divididos em estados nacionais, da mesma forma que os indivíduos em geral, possuem diferentes graus de evolução, sendo uns mais adiantados do que os outros.
Do ponto de vista econômico, isto se traduz imediatamente nos maiores ou menores níveis de bem-estar social que umas nações demonstram sobre as outras.
Pelo menos por enquanto, procuremos abstrair os problemas decorrentes do imperialismo ou da exploração de povos, aspectos estes que mascaram a realidade dos fatos, tornando mais complexo ainda o entendimento da questão da evolução das relações econômicas, muito embora as lei maiores que regem a vida, encarreguem-se de corrigir essas distorções "forçadas" ao longo do processo histórico - e os exemplos de ascensões e quedas dos impérios, comprovando isso, são inúmeros.
Note-se que o econômico e o social, no linguajar atual das nações do terceiro mundo, entre elas o Brasil, sobretudo quando investem no desenvolvimento, passam a ser quase sinônimos, um não andando sem o outro, como se nesse novo estágio, fossem proibidos os grandes negócios do mundo econômico para aqueles que não passem pelo vestibular do "social", da solução dos problemas básicos que afligem as suas populações.
É possível que o amadurecimento atual firme cada vez mais a idéia de que as soluções para os grandes problemas econômicos devam ser encontradas pelo esforço no sentido das "aproximações sucessivas", em direção ao melhoramento dos sistemas "por dentro", ao invés de desperdiçarmos preciosas energias na luta por substituições globais ilusórias (simples troca de sistemas).
Neste campo das ciências econômicas, é importante fugirmos das receitas prontas para qualquer problema, e entendermos que, efetivamente, estes demandam idéias novas, esforço jovem e, sobretudo, livre de preconceitos.
As falhas teóricas e práticas, por demais visíveis e estudáveis, nos dois principais sistemas que governam o mundo - o comunista e o capitalista - são de tal ordem que, desde já, seria ridículo a opção por qualquer um dos dois como sendo o caminho da verdade.
Entretanto, como é confortador e estimulante, desde que não tenhamos ficado prisioneiros das visões doentias das obsessões ideológicas, sabermos que, enquanto humanidade, já possuímos uma experiência fantástica no aprofundamento de tais sistemas. Conhecemos, portanto, inúmeros sistemas econômicos antigos e, modernamente, não dominamos apenas um, mas dois sistemas, podendo melhora-los, derroga-los, fundi-los, ou fazer com eles aquilo que acharmos mais conveniente.
Qualquer materialização concreta das atividades humanas existe, antes, ao nível das idéias, sendo elaboradas a partir do pensamento, do espírito, sendo, posteriormente, postas em prática. É por isso que as utopias são sempre possíveis.
Acreditamos que tudo aquilo que o homem engendrar para si, na sua mente, desde que passado pelo crivo do determinismo evolutivo a que estamos condicionados por lei natural, é possível de ser realizado.
Albert Einstein, após terminar a sua famosa teoria da relatividade, declarou algo de transcendental importância para a época de transição que hoje vivemos: "a matéria não explica a matéria".
Não estranhemos que o nosso raciocínio possa levar-nos do econômico para as partículas subatômicas, pois na verdade, tudo é uma coisa só, interligadas num feixe de problemas que dizem respeito a evolução do homem e das suas experiências com a verdade, e as questões econômicas são apenas mais um dos seus desafios.
Defrontamo-nos, pois, com problemas imediatos de uma realidade material que precisamos transformar, melhorando-a; sabendo, porém, que essa mesma realidade, que testa a todo momento o nosso equilíbrio psíquico interior, nada mais é do que ilusão.
Quanto mais dissecamos a matéria, decompondo-a em suas microscópicas partículas constitutivas, mais chegamos a nada, ou melhor, a energia pura, a pensamento bruto. O neutrino, uma das últimas partículas subatômicas descobertas pela ciência, foi chamada de "partícula fantasma", numa clara alusão à sua imaterialidade. (1)
Essas considerações, aparentemente tão distanciadas do econômico, obrigam-nos a meditar mais sobre o lugar correto a ser realizada a incisão cirúrgica nessa operação de transformação do mundo.
Gastamos demasiadas energias querendo transformar a matéria, quando esta é uma consequência e não passa de uma exteriorização do pensamento do ser, ou da somatória das suas emanações psíquicas.
Não conseguiremos transformar o mundo sem uma mudança qualitativa na forma de pensar dos indivíduos, para que estas se processem de dentro para fora.
A tão decantada junção ou harmonia entre teoria e praxis, por demais necessária, deve, de fato, iniciar a partir de uma revolução interior.
Nada é mais verdadeiro do que o encadeamento natural expresso nesta idéia de André Luiz: "os pensamentos geram os nossos atos e os nossos atos geram pensamentos nos outros".(2)
A nossa postura positiva em relação à vida, portanto, é a maior arma que podemos acionar no trabalho eficaz para a melhoria substancial das relações no planeta.
A nossa sociedade materialista de hoje, ganha cada vez mais o controle da matéria, mas perde e descuida completamente do controle da mente, do eu interior, possibilitando falhas e rechaduras imensas no edifício social.
Não adianta querermos resolver determinados problemas ditos "científicos", se fecharmos os olhos para o fundamental, se ficarmos tratando de mexer apenas no que é aparente, não indo ao fundo dos problemas.
Uma grande parte dos males econômicos atuais decorrem basicamente do comportamento irracional que praticamos com os nossos semelhantes e com os bens materiais sob nossos cuidados.
O egoísmo, a cobiça, a avareza, a luxúria, a malvadez, a preguiça, o ócio, a irresponsabilidade, os vícios, são os maiores incentivadores da fome no mundo, e também das guerras, da escassez e do desperdício, da exploração do homem pelo homem, dos abusos e de tantos desequilíbrios conjunturais e estruturais que desestabilizam o econômico e o social.
Os preconceitos e os interesses escusos de indivíduos e de grupos, contudo, dificultam a que tais questões sejam tratadas em bloco, e separam os problemas em científicos e morais, religiosos e filosóficos, econômicos e sociais, físicos e químicos, materiais e espirituais, bipartindo sempre todas as questões, em prejuízo do entendimento global. (3)
A medicina, por exemplo, pelo menos no ocidente, chegou ao cúmulo de orientar os psiquiatras (médicos também), para não encostarem a mão em seus pacientes (uma das escolas da psiquiatria), tratando os problemas mentais completamente desvinculados do corpo físico.
Hoje temos especialistas para fígado, outros para pulmão, vários para ossos, e somos tratados aos pedaços; portanto, uma medicina que ajuda, igualmente, a aprofundar ainda mais esse caminho desagregativo, ao invés de direcionarmos os nossos esforços para a unidade. A análise somente é importante enquanto nos ajuda a fazer a síntese, caso contrário, torna-se um remédio não somente ineficaz, mas, quem sabe até, um veneno para o organismo.
Vejamos o caso da reforma agrária no Brasil da década de 80, por exemplo, para entrarmos mais, agora, numa questão vinculada diretamente ao econômico.
De um lado, temos muita terra na mão de poucos, e de outro, milhares de indivíduos sem terra, ligados a ela, mas sem a sua propriedade.
Os que tem, alegam possui-la legalmente e dela não querem abrir mão, e os que não tem, ameaçam a utilização da força bruta para sua obtenção, originando um impasse e um principio de doença no organismo coletivo e social.
De um ponto de vista abrangente, daqueles que são responsáveis pela maximização dos resultados para benefícios coletivos, como é o caso do governo e/ou dos organismos estatais, uma mudança na estrutura fundiária, conjuntamente com outras alterações (remédios), torna-se necessário para que a doença não progrida, e a destruição de partes importantes e vitais da estrutura não venha a comprometer ainda mais a relativa harmonia do todo.
Surge, então, a Reforma Agrária como sendo o medicamento adequado, mesmo porque, no caso, já foi testado na absoluta maioria dos países hoje desenvolvidos, com enorme sucesso, trazendo o equilíbrio e melhorando, como subproduto, a produtividade geral da agricultura.
Acontece que muitas vezes os pacientes negam-se a tomar o medicamento, e quando isso acontece, o mal se aprofunda, e então, os problemas tornam-se mais agudos, exigindo e obrigando intervenções das áreas mais organizadas e poderosas do sistema nacional, tentando localizar e isolar a ferida, para que a moléstia não se expanda ainda mais.
O nível de evolução do paciente, portanto, é fundamental no tipo de desdobramento que o processo terá.
As mudanças que se farão possíveis estarão sempre subordinadas às possibilidades dos seus elementos constitutivos, ou seja, serão de acordo com o nível das pessoas ou das organizações envolvidas no processo, conduzindo-se de maneira melhor ou pior conforme sua evolução; incluindo-se aí todo o arcabouço legal existente e o possível de surgir, fruto das negociações entre as tantas forças envolvidas na dinâmica do processo de continuo reequilíbrio sistêmico.
Assim que, mesmo os problemas sociais, são semelhantes àqueles que acontecem no funcionamento do nosso organismo físico-celular, tanto quanto a estrutura do átomo e dos elétrons também é semelhante aos infinitos sistemas solares do cosmo, porque o pequeno e o grande são iguais, diz-nos uma simples, porém profunda sabedoria chinesa antiga, e tanto podemos estudar o micro para entender o macro, quanto o contrário também é verdadeiro.
Queixamo-nos da injustiça sempre que somos ignorantes para entender as verdadeiras causas que comandam os fenômenos em geral. A impaciência dos "sem terra", que no caso da Reforma Agrária, venha a precipitar invasões descontroladas e ilegais, à margem da lei existente, mesmo que essa lei esteja caduca e carregada de imperfeições, trar-lhes-á a dor das perdas humanas ocasionadas pelo acirramento da violência, da mesma forma que a intransigência dos latifundiários, apegados a uma posse histórica completamente discutível, uma vez que na maioria das vezes originaram-se de ações "nada santas" dos antepassados dos atuais proprietários, acabará por trazer, também a estes, a insegurança e o sofrimento dos conflitos sangrentos.
Somente a evolução das partes poderá determinar negociações pacíficas e avançadas, esperança esta que se encontra no coração daqueles que já entendem os processos naturais da seleção do mais forte, que ainda predominam nos setores carregados de animalidade, preponderantes, ainda, no planeta Terra.
Queremos ver os problemas econômicos intimamente ligados à própria razão de ser do homem na Terra. Não nos adiantará jamais elaborarmos soluções e modelos complexos e aparentemente eficientes, se tais medidas resolvem e equacionam somente as questões materiais e imediatas, porém, remetendo-nos para os labirintos e fossos profundos das neuroses, psicoses e angústias, tão comuns no mundo moderno e "desenvolvido" atual.
O nosso equilíbrio interior, consciente do papel a desempenhar, enquanto célula e partícula integrada ao Tudo Que É, que engloba a bio-sociologia humana, é básico para um entendimento harmônico de quaisquer questões, inclusive as econômicas.
De que vale mergulharmos na solução dos problemas imediatos, sem termos pelo menos uma boa idéia do que fazemos aqui e agora? Correremos sempre o risco de encontrar respostas sistematicamente incorretas para os mesmos, e é isso mesmo o que geralmente acontece; prova-nos uma rápida olhadela para os inúmeros frontes do planeta.



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(1) Na obra: Correlação espírito-matéria, do psiquiatra Jorge Andrea, Edição Samos, 1984, pg.30, podemos ler:"...atualmente os cientistas estão acordes que o neutrino possue massa." No entanto, na mesma página, o autor continua: "os mésons, de qualquer qualidade, leves ou pesados, de carga negativa, positiva ou neutra, apresentam um inusitado comportamento no núcleo atômico. Mostram-se e ocultam-se, a todo momento, denotando a existência de canais ou pontos de união entre a nossa conhecida dimensão material e aquela outra onde vicejam as camadas mais próximas do perispírito. Não estaria aí um ponto de união ou passagem entre o espírito e matéria?
Outros aspectos merecem estudo, no lado do macro (astronomia avançada); são os buracos negros, possíveis passagens ou canais de um plano ou dimensão a outro: "caminhos de minhoca espaciais" (ver Karl Sagan, Cosmos, 241).
(2) Obra mediúnica.
(3) "Se o homem é, funciona como um todo e se as ciências insistem em trabalha-lo como se fosse formado por partes estanques, a qual delas caberá a glória de ajuda-lo como ser integral? A essa ciência do homem é preciso chegar logo que possível, para que a partir dela o panorama humano comece a se integrar no todo." In Jesus e a Jerusalém renovada - Ramatis, 3ª edição, pg. 112. Editora Freitas Bastos. Obra mediúnica.


2. O MATERIALISMO HISTÓRICO ESTÁ MORTO.

O grande erro dos teóricos materialistas atuais, cujo pensamento econômico tem dominado profundamente os dois últimos séculos, o XIX e o XX, mais comumente ainda entre os teóricos marxistas, quando analisam os pensadores antigos, é de pretenderem julgar suas idéias relacionando-as com questões atuais, não levando em conta a harmonia que estas necessitavam ter com as condições da época em que se inseriam.
Tais analistas condenam um Adam Smith, por exemplo, por este autor não ter, naquela época (1723 - 1790), vendido à sociedade a idéia de um Estado atuante, regulador ou interventor no espaço sócio-econômico, tal qual se concebe em nossos dias, em qualquer dos dois sistemas vigentes no planeta.
É possível que não tenham entendido que a evolução dos homens e das sociedades dá-se lentamente e as soluções vão aparecendo na medida da necessidade. Aliás, idéias do próprio Marx, expressa mais de uma vez em O Capital.
A "mão invisível" de Smith, reguladora do sistema, tem a ver com o século XVIII, dos navios movidos a vela, das carruagens, das primeiras invenções que lançaram as bases, tanto quanto as próprias idéias de Smith, para a 1ª Revolução Industrial.(1)
"... A maior contribuição de Adam Smith foi ter reconhecido no mundo social da Economia aquilo que Isaac Newton (1642-1727) havia reconhecido no mundo físico dos céus: uma ordem natural auto-reguladora". (2)
Nessa transformação, da carruagem e dos Reis para as máquinas e os industriais, Adam Smith pregava:
"... é altamente impertinente e presunçoso, por parte dos reis e ministros, pretenderem vigiar a economia das pessoas particulares e limitar seus gastos, seja por meio de leis suntuárias, seja proibindo a importação de artigos de luxo do exterior. São sempre eles, sem exceção alguma, os maiores perdulários da sociedade. Inspecionem eles bem, seus próprios gastos e confiem tranqüilamente que as pessoas particulares inspecionarão os seus. Se seu próprio esbanjamento não arruína o país, não será o de seus súditos que um dia o fará." (Smith, V.I,p.296). (3)
Colocava-se, assim, ao lado do progresso, da "revolução", da burguesia que levava o germe da mudança e da renovação, substituindo o velho regime, que cansado, e já tendo cumprido o seu papel histórico, era substituído por comando mais jovem e apto, de acordo com as necessidades da evolução global.
"Nada do que foi dito antes pretende dar a entender que Smith era uma "vaquinha de presépio" em ralação à classe dominante. Na verdade, ele mantinha uma saudável desconfiança dos homens de negócios (dizendo, por exemplo, "as pessoas do mesmo ramo raramente se reúnem, mesmo que seja para se distrair e divertir, mas a conversa acaba numa conspiração contra o público, ou em algum conluio para aumentar os preços").Smith era, positivamente, a favor do homem da rua..." (4)
Evidentemente que a "classe operária", que muitos pretendem ser o único móvel atual das mudanças que os novos tempos exigem, não existia ainda, sendo impossível, portanto, que Smith defendesse algo inexistente.
Existiam, entretanto, os pobres, os despossuidos, os oprimidos, os servos, pagens, damas de companhia e todo o imenso escalonamento social que configurava a estrutura de então.
A "classe operária moderna", conduzida no século XX ao comando máximo do Estado Russo, em 1917, por Lenin, Trotsky, Stálin e outros líderes, foi descoberta por Marx e Engels alguns anos após a morte de Smith, por volta de 1840, mais ou menos, quando em seus estudos como O Capital e vários outros, contribuíram decisivamente para dar-lhes um suporte teórico-político-revolucionário-classista, recaindo (o modelo marxista), principalmente sobre os assalariados das indústrias que cresceram por obra da 1ª Revolução Industrial, realizada pelos industriais-comerciantes (burgueses), que por sua vez haviam desbancado os reis e toda a aristocracia da época anterior.
E não erraram, Marx e Engels, quando perceberam as leis maiores da vida que obrigam a que os indivíduos interajam entre si, deterministicamente, para materializar a evolução e o progresso global, fazendo com que a história se cumpra e os mais aptos acabem sempre por assumir o lugar dos que tornaram-se obsoletos para dirigir os rumos naturais da existência, posto que esta exige progresso e evolução constantes, através do trabalho sério em benefício de todos, não admitindo, por longo tempo, uma classe dominante corrompida, decadente ou suntuosa, que subverta a ordem mais profunda da natureza.
Todos os sábios, contudo, e Marx e Engels o foram, certamente, podem usar os seus conhecimentos, sabedoria e ciência, em benefício das boas ou más obras.
Nós não sabemos, hoje, para que lado pende a balança que julgou ou julgará a obra política desses dois personagens históricos.
Sua obra científica, sem dúvida, foi positiva, uma vez que serviu para um entendimento melhor e maior das questões econômicas, porém, mesmo os marxistas mais ferrenhos, haverão de admitir uma separação entre o Marx cientista e o Marx político.
Em sua obra é possível ver, claramente, algumas rupturas sérias, delimitando campos políticos e nada científicos, como a introdução do conceito de "exército industrial de reserva", variável esta totalmente fora do modelo inicial, e que, num dado momento da vasta obra marxista, entra de "pára-quedas" na evolução do trabalho, tudo levando a crer que devido a uma "necessidade" política decorrente da cada vez maior vinculação de Carlos Marx aos movimentos sindicalistas europeus de então. (5)
Dirão alguns: "mas não é possível isolar o cientista da sua postura política na sociedade". É verdade! E como não somos perfeitos, acabamos quase sempre por interromper ou atrapalhar os nossos mais importantes projetos, trabalhos ou estudos, sendo massa de manobra de interesses políticos, de indivíduos ou de grupos, correndo sistematicamente riscos de deixarmos que nos desviem para obras destruidoras, de guerras, divisões, retaliações, acirramento do ódio entre os homens, etc...
A grande questão que se coloca para cada indivíduo, é o que fazer com aquilo que possuímos. Quando se trata apenas de posses materiais, o alcance que poderemos dar ao seu uso não é tão grande, uma vez que somos detentores somente de duas mãos, dois pés, um corpo, enfim, mas, quando se trata de definir os rumos a dar para as nossas aquisições intelectuais, que devem materializar-se em pensamentos-ações, a nossa responsabilidade é muito maior.
Já aprendemos, embora tenhamos sido historicamente recalcitrantes nessa questão, que as idéias são impossíveis de matar, e é por isso que devemos exercer um controle cada vez maior e equilibrado sobre o que pensamos e esteriorizamos.
A grande maioria dos sábios que passaram pelo planeta, sem dúvida, rapidamente descobriram, para citarmos apenas um exemplo, e dando continuidade ao raciocínio anterior, esse evoluir natural da vida, expressa nos ciclos, que ocasionam o movimento de fortalecimento constante das classes inferiores preparando-se para substituir as que dominam. Da mesma forma, a tendência natural das dominantes em perder-se nos vícios e no ócio, ingressando nos processos de decadência que acabam por perdê-las, ocasionando os desmoronamentos dos grandes impérios que a história bem tem registrado.
No atual estágio do mundo terreno, esta situação é natural e normal, embora percebamos, pelo uso da razão e das previsões dos cérebros que possuem antenas sintonizadas com o futuro, que tais tendências cíclicas serão quebradas por estágios de vida superiores ao nosso, aonde a guerra e a fome, entre outros característicos de mundos pouco mais que primitivos, serão assuntos resolvidos.
Não podemos esquecer de que 600 anos antes de Jesus, Thales, de Mileto, descobriu a esfericidade da terra, pela observação da estrela polar e outros parâmetros, mas que no século XV, portanto cerca de 2000 anos após, navegadores europeus como Vasco da Gama, Diogo Cão, Cristóvão Colombo, Cabral, Magalhães e tantos outros, lutavam para convencer a aristocracia da época à investirem na construção de navios, porque a Terra era "de fato" redonda; que Giordano Bruno foi queimado pelo Santo Ofício (Igreja Romana) no dia 17 de Fevereiro de 1600, porque teimava em esclarecer que "o Universo é ilimitado, que a terra não é o centro da vida, mas humilde dependência no concerto glorioso dos mundos que rolam, inumeráveis, no plano universal".
Assim que, não são poucos os que "sabem das coisas" com uma antecedência imensa, relativamente às massas. É interessante notar que quando analisamos as gamas incontáveis de níveis evolutivos que co-habitam na terra, em termos de coletividades diversas - podemos encontra-las no estágio de vilas, de tribos, de comunidades com relações sócio-culturais semelhantes às que imperavam no século XVIII, de cidades que mal fizeram a Iª Revolução Industrial, ou de aglomerados humanos que vivem literalmente próximos da idade da pedra lascada - aceitamos tais níveis, mas para planos abaixo do nosso, dificilmente admitindo ou pensando que esse fenômeno se dê para cima.
Para baixo, ou seja, do nosso nível evolutivo para outros menores, podemos aceitar, porém, que existam seres, indivíduos, ou mesmo coletividades, co-habitando conosco, na Terra, vivenciando o futuro, possuindo concepções e conhecimentos tão adiantados que seriam demasiadamente difíceis para nós entendê-los? Isso não, a nossa vaidade pessoal não pode admitir com facilidade, somos demasiadamente egocêntricos e também obtusos em nossa cegueira orgulhosa e egoísta; quando muito poderíamos abrir alguma exceção para aceitarmos alguns cientistas oficiais, bem atreladinhos ao sistema formal, que em sua maioria, com honrosas exceções, trabalham em obras destruidoras: bombas de neutrons, fabricação de aviões de guerra,etc...e não pela vida em sua melhor concepção.
E realmente não é fácil encontra-los, individualiza-los, pois outro aspecto interessante da evolução é a aquisição natural da modéstia e da humildade, que crescem junto com o verdadeiro aprimoramento moral dos seres. "Quem mais aparece, menos vale; quem mais grita, menos pensa; quem mais se impõe, menos sente; quem mais se afoba no campo da atividade exterior, se acha mais vazio e arruinado no campo das construções internas do espírito." (6)
Se a luta de classes, num estágio em que os seres humanos ainda carregam resquícios pesados e sufocantes de animalidade, canalizando energias para os embates de estabelecer e delimitar o campo de comando dos mais fortes sobre os mais fracos, é um mecanismo natural da vida, necessário para a evolução do homem, não significa que devamos trabalhar no sentido de fomentar o acirramento da luta.
Nós sabemos que, fatalmente, um dia, nossos filhos irão morrer, posto que é da Lei a experiência da morte física, mas não temos o direito de mata-los para apressar o processo. A responsabilidade de quem sabe sempre é muito maior que a do ignorante e do tolo. "os discursos de quem não viu, são discursos; os discursos de quem viu, são profecias" (7), lembra-nos o Padre Vieira, pois, certamente, já havia percebido a fragilidade que existe entre o presente, o passado e o futuro, visto que o tempo subordina-se a dimensão matéria, e todo aquele que se coloca numa posição de transcendência do puramente físico-material, rasga com facilidade os mistérios aparentemente insondáveis do futuro, e também relembra o passado com mais facilidade, transpondo as barreiras do último renascimento.
A vida, após esgotar gradativamente a sua ânsia de evolução, via matéria, dar-se-á cada vez mais através do campo interior do espírito.
Encontra-se muito próximo o momento em que a ciência, inevitavelmente, descobrirá o espírito, pela simples observação da matéria, que cada vez mais se esvai e escorre no visor dos sofisticados instrumentos científicos modernos, transformando-se, aos olhos curiosos dos cientistas mais observadores, em puro pensamento.
O método científico experimental, que ajudou-nos a desvendar os mistérios da vida, até hoje, cumprindo brilhantemente sua etapa, breve não servirá mais.
Os novos voos da humanidade necessitam ser catapultados por métodos mais aprimorados, muito embora os reacionários de sempre lutarão ferozmente contra seu surgimento.
Tais métodos exigirão liberdade para o espírito. As amarras do experimentalismo terão que ser quebradas, e um panorama imenso se descortinará para o homem, pois ciência e religião se darão as mãos, apoiando-se naquilo em que são fracas, enquanto forças divididas pelos preconceitos de ambos os lados. Essa junção, sobretudo, possibilitará o encontro de dois acervos fantásticos do conhecimento humano, cada um dos quais guardados e enquadrados pelos muros do sectarismo e do espírito de divisão.

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(1) Lançadeira automática de john Kay (1733); a máquina hidráulica de Richard Cartwright, patenteada em 1769 e 1775; o tear de Samuel Crompton (1779), aperfeiçoado por Reith e outros; o tear mecânico de Edmundo Cartwright, patenteado em 1785 - esses primeiros passos em direção à Revolução Industrial foram as sementes que possibilitaram a colheita da máquina a vapor (o maior momento, talvez, da Revolução), patente de James Watt em 1769, utilizada por Edmundo Cartwright (1789), numa fábrica montada por ele, quando aumentou consideralvelmente a produção de tecidos, impactando o mundo todo; depois: os metais, fornos metalúrgicos (altos fornos), os tornos (máquinas ferramentas), peças, vagões, locomotivas, pontes, máquinas têxteis, etc... Eis aí a grande mudança!!!
(2) Introdução à Análise Econômica, Samuelson- Agir, 1975, p.892.
(3) In: Teoria Econômica e Estado (de Quesnay a Keynes), Gentil Corazza - Edição da FEE, revista "Teses", maio de 1986, p. 26.
(4) Introdução à Análise Econômica, Samuelson, p. 893.
(5) A verdade é que a obra de Marx (1819-1883) deixou tantos furos e suas "profecias" demonstraram tantas incorreções, que autores como o Prof. Samuelson, por exemplo, ao comenta-lo e cita-lo (Intr. à Análise Econômica II, Livraria Agir Editora, 75, p.904 a 919), embora respeitem o Marx cientista, comentem o exagero da deificação de Marx, pelos marxistas fanáticos, em tom de brincadeira, lembrando a piada muito em voga entre poloneses e tchecos, de que "no capitalismo, temos o homem explorando o homem, no socialismo, dá-se o contrário". Brincadeiras à parte, porém, encontramos citações demasiadamente verdadeiras: "Quando se lê biografias de membros da Velha Esquerda, para não dizer da Nova, descobre-se que não chega a um entre dez crentes o número que foi além dos primeiros capítulos do Vol.I (Das Capital). Eles lêem apenas o suficiente para poderem adquirir a crença de que as provas do declínio do capitalismo, apresentadas à maneira de Spinosa garantiram a certeza científica do socialismo".
(6) Ubaldi, Pietro.
(7) In: Espelho Mágico. Adélia Bezerra de Menezes, Hicitec, S.Paulo, 82
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3. NASCE UMA NOVA MANEIRA DE PENSAR.

Convidamos o homem ocidental, movido a dinheiro, "status" e aparência, a pensar um pouco mais no seu semelhante, e o homem oriental, a libertar-se dos rígidos condicionamentos dos "modos de produção", para podermos adentrar um pouco mais nos assuntos econômicos que configuram inúmeros dos problemas que necessitamos solucionar nas nossas lutas cotidianas.
Como evidentemente o amigo leitor já terá percebido, este trabalho pode ser tudo, menos algum manual para se fazer dinheiro ou ascender ao poder político. Trata do econômico, sim, possivelmente, porque o autor é economista, sendo, o tema, mera oportunidade para o que verdadeiramente estamos tentando expor - já que poderíamos encaixa-lo em qualquer atividade técnica, científica ou profissional existente - pois conversamos sobre assuntos sérios, de trabalho, da vida, e, sobretudo, de liberdade.
Estes escritos, então, poderiam ser classificados como uma tentativa de contribuir para uma vida mais harmônica dos indivíduos, consigo mesmos e em suas relações com os semelhantes.
Pensamos que, em primeiro lugar, é importante, em qualquer atividade da vida, que pretenda ser exercida conscientemente, entender que tudo está vivo e presta algum tipo de trabalho e serviço.
Não existe absolutamente nada sem função na vida. Existem, sim, inúmeros elementos ociosos e/ou mal utilizados, dentre os quais, aparecemos nós, os seres humanos, como os campeões da preguiça e da energia desperdiçada, ou utilizada para o trabalho contra a vida, subvertendo a ordem natural das coisas e, portanto, de Deus.
A responsabilidade dos seres humanos sobre grande parte da organização do trabalho, junto às formas de vida menores, como a animal, a vegetal e a mineral, é a maior de todas, pois já é dotada de uma consciência que transcende os impulsos instintivos que comandam as tarefas em planos mais inferiores da existência.
Quando dirigimos um trabalho ou um programa de inseminação artificial de ovinos numa região agro-pecuária do sul do Brasil, por exemplo, afora todos os estímulos diretos e indiretos que impulsionamos no espaço sócio-econômico regional, pela melhoria genética dos rebanhos, da carne, e, conseqüentemente, da alimentação humana, sem falar no aprimoramento da qualidade da lã, que por sua vez terá, como repercussões de longo prazo, influenciações nos tipos de roupa e até na moda ocidental, somos responsáveis por inúmeros outros desencadeamentos; alguns, possíveis de captar, e outros, praticamente impossíveis, até de entender, face às limitações naturais de nossas inteligências em processo de evolução.
Em qualquer dos casos, contudo, entendendo ou não o nosso papel, somos sempre instrumentos necessários e fundamentais de algo maior, na engrenagem do grande Sistema Cósmico.
O tratamento que dispensamos aos ovinos, embora em certa medida semelhantes, são bem diversos das práticas para as lides com o gado vacum: "a ovelha é bicho burro, doutor", diz o capataz para o médico veterinário, "não aprende nada! Olhe como o gado é diferente e logo aprende os caminhos, a entrada na mangueira, certos comportamentos..."
Seguramos as ovelhas com as mãos, acariciamos sua lã, curamos as suas feridas, aplicamos-lhes injeções, usamos cachorros ovelheiros para ensinar-lhes a disciplina e a ordem, além das vantagens de permanecerem unidas, como forma de defesa contra os predadores naturais, mas carneamos muitas para o alimento dos homens; e a faca corta seus pescoços, de tempos em tempos, alternando-se o afago da tosquia com a dor do corte profundo do punhal do matador.
Quantas gerações, quantos milênios serão necessários para que esse animal melhores suas condições de persepção consciencial?
Ao gado, animal forte e de densa materialidade, tratamos, ainda, brutalmente, com o chicote estalando violentamente sobre seus dorsos, suas cabeças e ancas, para fazê-los entrar mais rapidamente na mangueira. Vacinamos, melhoramos, curamos suas bicheiras, mas ainda causamos-lhes o sofrimento do ferro em brasa da marca econômica, da castração e do abate. E eles aprendem, tornam-se mais inteligentes, ao longo dos evos.
O gado, embora já entenda bastante a nossa linguagem, está longe de capta-la tanto quanto desejaríamos. Entende quase que somente a voz do chicote do peão da estância, porque sente dor e tem que cumprir a ordem irrevogável de entrar no curral e banhar-se para exterminar o carrapato nocivo que lhe corroe o couro. O peão aplica a Lei. Caso desobedeça, sobrevem-lhe o sofrimento lancinante do rêlho. Hora da vida e hora da morte, da vacina e do abate. O gado obedece.
O açoite de quem nos aplica a Lei, em nosso atual estágio de vida, na maior parte das vezes, não é visível, mormente quando o instrumento que nos fere, avisando-nos de que estamos nos distanciando do caminho, atinge os confins profundos do nosso ser mais íntimo, causando-nos a dor moral, tão mais difícil de suportar. "Eis a Lei".
Não estamos, absolutamente, querendo revogar a lei da oferta e da procura, mas apenas querendo coloca-la no seu devido lugar, como fator subordinado, econômico, e, quando muito, tangenciando o social.
Sem embargo, as motivações dos indivíduos, das massas e dos países, que perfazem e condicionam o econômico de hoje, certamente não serão as mesmas no futuro e as "leis" serão outras.
Pietro Ubaldi, em seu "Problemas do Futuro", desmistifica totalmente os condicionantes e as amarras ou "móbiles" do homem econômico atual, colocando um simples raciocínio, quase que axiomático, dado o seu alto teor evolutivo, e que certamente chegou ao seu cérebro privilegiado, através das antenas sensíveis que possuía, perfeitamente sintonizadas com o futuro.
A sua idéia tem a ver com o comportamento de um ser muito mais evoluído e civilizado do que o homem médio da atualidade e que será o homem do Terceiro Milênio.
Diz-nos Ubaldi que se invertêssemos alguns conceitos econômicos absolutamente predominantes neste momento, teríamos imediatamente resolvidos um dos principais flagelos da Terra: a fome e a escassez de bens, sobretudo dos alimentos, bastando, para isso, que cada indivíduo trabalhasse, com afinco verdadeiro, colocando nisso suas maiores energias, no sentido de enriquecer os outros, ao invés de a si mesmos - o patrão tendo como objetivo principal o enriquecimento dos seus operários e os operários trabalhando firmemente para o enriquecimento do seu patrão. Em síntese, essa é a grande inversão, mas que requer outro tipo de ser, mais elevado moralmente, dispostos a empreender as grandes reformas iniciando-as por si mesmo.
Chegaremos lá, mas enquanto isso, a grande maioria continuará suas lutas egoístas em busca do enriquecimento pessoal ou da glória pessoal, pensando minimamente no próximo e procurando "tirar vantagem", porque "o mundo é dos vivos".
Já procedemos vitoriosamente a grande revolução que nos tirou a idéia animalizada da predominância da força bruta sobre as demais, como um dos vetores resultantes da verdade, embora ela predomine e esteja presente, ainda em muitos nichos do planeta. Espera-nos a próxima (revolução), mais sutil, sub-reptícia, imanente, pois trata-se de uma batalha interior, ao nível muito mais do espírito do que da matéria, ou dos aspectos puramente exteriores. Esta luta, porém, catapultar-nos-á para alguns degraus acima, na escala natural do processo evolutivo da vida, demandando, para tal, seres mais espiritualizados, desprendidos e desapegados da matéria, carcereira implacável da grande maioria das mentes no atual estágio da vida humana na Terra.
Não será possível solucionar as questões de ordem econômica unicamente com fórmulas e modelos matemáticos ou numéricos, e nem toda a tecnologia atual e futura da avançada informática possibilitarão as saídas verdadeiras para os grandes males da atualidade.
É por isso que tentamos aprofundar um pouco mais determinados assuntos pelo terreno da filosofia, sem as amarras das "escolas" e procurando um pensamento mais livre e ao mesmo tempo menos obscurecido pelas limitações dos modelos computadorizados das atuais sociedades desenvolvidas.
É preciso encararmos os fatos com espíritos desarmados e ânimos dispostos para as soluções mais próximas da verdade, sem máscaras e mentiras, mesmo que isso exija da nossa parte uma grande dose de renúncia.
Queremos a guerra ou a paz? se efetivamente queremos a paz devemos trabalhar por ela tempo integral, e desde já, começando por desarmar os espíritos empedernidos na postura guerreira e belicosa, que mesmo escondidos por detrás de ideologias que aparentem as melhores das intenções, acreditam, ainda, na violência, como meio adequado para ultimar finais felizes e abundantes de um mundo abarrotado de produtos, mas, afogado na angústia existencial da carência afetiva do verdadeiro amor, que é sempre a paz e jamais a guerra.
Não vemos outra possibilidade ou remédio para vencermos as crises e retomarmos um caminho mais saudável, do que aquele de empreendermos uma mudança interior, para que, automaticamente, se propague, em reflexos positivos, sobre as organizações e as instituições humanas, impregnando-as de uma nova visão de mundo.
O individual e o social não terminarão jamais esse processo infinito de interação recíproca, do todo sobre o indivíduo, e vice-versa. Os momentos históricos, sem embargo, exigem que ora um, ora outro, desempenhem papéis mais atuantes na consolidação da obra da criação e da vida. É necessário, portanto, que procuremos esse discernimento, para sabermos desempenhar melhor os nossos papéis e as nossas funções no contexto global desse todo.
Quanto maior a nossa clareza de espírito e visão, quanto mais conseguirmos elevar o nosso pensamento, desobstruindo os canais naturalmente poluídos dos planos físicos, transpondo e transcendendo o puramente material, captaremos melhor as orientações do verdadeiro Comando da Vida, adquirindo possibilidades maiores para utilização das nossas energias no trabalho cada vez mais sadio, e em harmonia com a ordem maior do universo.